antologia da noite em claro

Tuesday, July 11, 2006

Monday, June 19, 2006

Django´s Blues (balada da canção interminável)

Uma canção bóia no breu da sala
Chiado de vinil, vinho tinto e dormonil.
Por quê o sono não vem? Por quê a vida se abala?
Lá fora, na noite imensa da cidade imensa,
Vejo um irmão vagando a esmo, um cão vadio,
Um carro encendido no pátio de desmanche.
A natureza da casa não reconhece a alma
E nem a calma do comprimido sossega a chama.
Por quê buscar um sentido? Por quê recusar a cama?
Django Reinhardt, Django Reinhardt.
Repito este nome até que a madrugada me vença
E o pio do primeiro pardal me encontre exaurido
De mim, de álcool, de tudo.
Vem, animal do dia, zombar em minha janela!
Vem, ó musa impossível, rasgar o primeiro caderno!
Porque sou imortal, sou eterno,
E não este fio de homem, esta réstia de noite
Tragada pelo cigarro, consumida pela estrela.
Este não sou eu diante da xícara de chá
Não sou eu este que pede, este que implora.
Vem, ó vida verdadeira, vem.
Mesmo assim, vem. De olhos vendados, vem.
Amordaçada, sangrando. Mas vem.
Vem riscar o disco, anular esta canção interminável
Porque sou este inseto em tua mão
Este farol no deserto

Este pedaço de pão.

Monday, April 03, 2006

Geografia do pássaro

Pássaro de mim mesmo
sou minha própria poesia
quando poesia me falta.

Pouso e repouso a esmo
no galho da árvore mais alta:

Palavra é geografia
nas asas de quem desafia
a vida, decadente ribalta.

Thursday, March 30, 2006

Do amor contínuo

A morte é leve como o fim de um segredo.
Só os meus livros
Prolongarão as carícias
Que as mãos já não alcançam.
Com palavras
Agora desconhecidas
Eu ainda lhes amarei
Ó, amigos!

Sunday, March 19, 2006

Mariana e sua borboleta

Mariana e sua borboleta tatuada sabe lá Deus onde...
Mariana me disse que gosta de borboletas
Porque borboletas são flores que voam.

Ah, Mariana,
mas nem que todas as borboletas desse mundo
viessem formar um jardim suspenso
ou um tapete voador drummondiano
pra me levar ao sétimo céu
eu trocava a tua borboleta de mentira
enquadrada em tão fina moldura.

Por nada nesta vida.
Nem que Deus quisesse, Mariana...

Wednesday, March 15, 2006

Da urgência de matar o homem de bem

Não suporto os bons poetas
Porque são lidos por homens de bem
Desses que amam a família, freqüentam a igreja
E guardam uma arma debaixo do colchão.
Ao se depararem com um bom poeta
Desses que dão entrevistas e viram verbetes
Ou que autografam livros na Bienal e apóiam o político de seu Estado
– pelo simples fato de serem conterrâneos –
Pensem duas vezes ao chamá-lo de poeta.
O poeta é, essencialmente, humano.
Tão humano que não há moeda de sol que o converta
No profissional asséptico e iluminado que esperam que ele seja.
Na calada da noite, no sal da lavoura, na boca do gol
Onde quer que esteja um solitário em busca de alforria
Lá está a poesia. Por isso não a busques nas críticas de jornal
Nem nos senhores de queixo bem barbeado que falam ao celular
Quando avistam de longe um leitor. Estes se incomodam
Com sua ridícula condição de homem público.
Não falam com pobre, não dão mão a preto, não carregam embrulho
Como naquele velho samba que também não cantam
– no máximo o citam nas palestras, por convenção.
Não se deixes levar pela conversa do bom poeta. Porque nenhum poeta
Pode ser bom, ainda que seu poema o seja. Um poeta não é
Um homem de bem. O poeta quer roubar sua mulher e matar o seu cão
E arrastar-lhe pela gravata até o meio da rua
E meter-lhe uma bala na testa
– a única coisa que presta

das que você deixava no colchão.

Thursday, March 09, 2006

A verdade talvez seja triste

A verdade talvez seja triste
A verdade talvez seja triste sim
Como manhãs radiantes
Rompendo vitrais
Na euforia torpe
Dos dias em que não morremos
Por uma causa que seja

A verdade talvez seja triste
Como tristes são os girassóis
Tatuados no tempo imóvel
A contemplar
Suas bem-aventuranças

Talvez seja triste a verdade

Como a fartura exposta
E os gemidos de fome
Que os muros rebatem.