antologia da noite em claro

Tuesday, January 31, 2006

Aviso aos ricos

Aviso aos ricos
que exaurem a vida:
Em São Coutinho
do outro lado da cidade
não há maçanetas de ouro
jatinhos particulares
ou sonegação de impostos.
O pão dos monturos
é disputado por homens e ratos
na ceia pagã da miséria.
Não te importas?
Pena.
Nem os muros mais altos
deterão a fome dos urubus.

Monday, January 30, 2006

o amor

embriago-me repetidamente
antes que venha a luz morta da manhã
e leve este resto de sonho
para a boca-de-lobo da vigília


estou posto na ponta do alumínio
impregnado de ideais e despojado de tudo
chamam-me à guerra, bombas de gás
diga que vou, ó vida lacrimosa!


nunca bebi, nem cri
em botequins vespertinos
errei por rodoviárias imundas, balcões infectos
e isso foi tudo o que apreendi do mundo:

meninas que matam por dinheiro, boquetes
baratos, cocaína malhada com anestésico,
o amarelo histérico do táxi deixando para trás
os pivetes da rua Sacramento

o amor talvez tenha o cheiro acre
deste amanhecer armado e sujo
que precede as demissões em massa
e os suicídios do Largo do Rosário

O amor, senhores, é abstêmio
e eu não tenho nada a ver com isso.

Sunday, January 29, 2006

Insônia

Nas noites de insônia
O menino de ontem
Vem perturbar o adulto de hoje

É a culpa dos sonhos da infância
Nunca realizados:

Balões coloridos de gás
Distintivos de xerife
Óculos de mergulho
Zarabatana de índio

A insônia é como ficar à janela
Com o olhar perdido em recordações
Enquanto um velho e enferrujado parque de diversões

Fecha suas portas

Saturday, January 28, 2006

Desejo

Uma ameixa de contornos eróticos
Bordada na toalha de mesa.

Na fruteira
Meu coração estremece,
Avulso.

Thursday, January 26, 2006

Pátria

Chegará o dia
em que sorrir não parecerá egoísmo
e muitos brasileiros se reconhecerão nas ruas.
Baterá à porta o teu mendigo de estimação?
Não!
Tu ficarás imóvel e solitário
na poltrona de feltro inglês

remoendo os cacos da tua soberba.

Tuesday, January 24, 2006

Quarto

Além dessas páginas se esgota o mundo
por isso é o quarto
– e não a rua –
o grande depósito do tempo.
Fora da cama
não há nudez ou nuvem
só esta vertigem
materializada e vibrante
que oscila no vapor do asfalto
ao meio-dia.
Além do sol que viu nascer o homem
só existe a realidade do quarto:
espelho do armário
estante de livros
fronha, pantufas
e milhões de anos de espera

por um poema que explique tudo.

Cidade Grande

Atravesso a cidade
Dentro do ônibus lotado
E os postes se sucedem
Como os rostos cansados.

Mesmo o trocador é eternamente
Repetido.

E esta nota velha
Que entrego dobrada
Entre o indicador e o dedo médio.

No ponto final
Desço feito uma vírgula

Tentando dar pausa ao tédio.

Monday, January 23, 2006

Pedra

O tempo é lapidado
no intestino da pedra:
bruto, puro, íntegro
sem o lixo e o detergente
que São Paulo bota para fora.
A solidão interior da pedra
deve conter o mistério da criação
e a ressonância da bomba H
inscrições bíblicas, água potável
e a menstruação coagulada do século 20.
Mas dou de ombros e fumo um cigarro
sentado na pedra, sem pensar na pedra.
Dentro dela o tempo insinua um diamante
mas eu, esperando o ônibus,
apenas absorvo da rua o seu instante fugaz.

Utopia

Morreremos?
Sim, morreremos.
E tudo terá sido inútil:
O amor
O trabalho
A poesia
A bomba atômica.
As coisas escoarão
pelo ralo do Nada
E tudo terá sido vão.
Lutaremos?
Sim, ainda assim
Lutaremos.

Sunday, January 22, 2006

Chama

É confortável esta prisão
uns dias, vodca
outros, pão
bebo porque posso
morro quando quero
fogo é comigo mesmo
não vem com esse papo de Nero

O Poema

O poema não passa de uma autópsia.
E o poeta, legista de seu próprio assassinato.