antologia da noite em claro

Monday, January 30, 2006

o amor

embriago-me repetidamente
antes que venha a luz morta da manhã
e leve este resto de sonho
para a boca-de-lobo da vigília


estou posto na ponta do alumínio
impregnado de ideais e despojado de tudo
chamam-me à guerra, bombas de gás
diga que vou, ó vida lacrimosa!


nunca bebi, nem cri
em botequins vespertinos
errei por rodoviárias imundas, balcões infectos
e isso foi tudo o que apreendi do mundo:

meninas que matam por dinheiro, boquetes
baratos, cocaína malhada com anestésico,
o amarelo histérico do táxi deixando para trás
os pivetes da rua Sacramento

o amor talvez tenha o cheiro acre
deste amanhecer armado e sujo
que precede as demissões em massa
e os suicídios do Largo do Rosário

O amor, senhores, é abstêmio
e eu não tenho nada a ver com isso.

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