antologia da noite em claro

Monday, February 27, 2006

Eternidade

Todo poeta se quer eterno.
Ser como uma idéia
Que mesmo incompreensível
Resiste na voz do vento.
Dobrando as esquinas do tempo
Faz do infinito um quarto de visitas
Enegrecido pelo fumo
Silencioso como uma lágrima.

Friday, February 24, 2006

Estreitas ruas

Estreitas ruas
Por onde caminham meus sonhos:
Nelas habitam anjos e demônios íntimos
Que entre um pecado e outro
Contemplam a eternidade
Na fumaça azul de um cigarro.

Wednesday, February 22, 2006

Chet Baker

Nada deterá esta nota
Nem mesmo a noite abrupta
Ou a cocaína amarga
Desta composição de metal
Que a alma traga.

Note:
Duas gotas de blue no teu copo
E somente a música é terna.

Tuesday, February 21, 2006

Quiromancia

Eu acreditava em quiromancia
Até o dia em que uma cigana me disse
Que a minha linha da vida
Terminava naquele verão

Eu acreditava em quiromancia
Até o dia em que não morri
E vi atravessar a rua
Um homem que não tinha linhas
Porque não tinha mãos

Hotel Paris

No Hotel Paris comíamos aspargos
E descobri:
Há dança em teus gestos largos
E mímica em teu mutismo
Um quê de teatro em teu choro
E música em teu orgasmo.


Vejo cinema em teu guarda-roupa
E arte abstrata quando meditas
Existe pintura diante do espelho

E escultura no olhar que me fita.

Existe um poema em nosso romance:
Que vive la France! Que vive la France!

E todas as artes coabitam tua carne
(Por todas as partes, por todas as partes)
Há fotografia em tua loucura
E a arquitetura reveste teus pés
Existe um chiste, uma caricatura
Em tua nudez trazes parangolés.

E rolamos na cama, que é o teu palco
E pisamos na grama, futebol e balé
E bebemos perfume, cheiramos o talco
Você de joelhos toca o meu oboé.


Canta Aznavour e ordena que eu dance:
Que vive la France! Que vive la France!

Sunday, February 19, 2006

Da necessidade de pausa

Ando cansado da fertilidade
Do brotar fecundo de temas
Desta insônia que interroga
Mais carne que alma.
Uma mordaça seria preferível a uma homenagem
Um tiro caíria melhor que um prelúdio
Um galho para os macacos
No lugar do epitáfio.
O que encerra o meu ser
– entrechoque de vírgulas –
são as coisas definitivas
como o silêncio e o crime.
E cada fiapo de memória
É uma tripa de mico
me suspendendo sobre o cadafalso.

Teu nome

O nome do teu nome entre os dentes
Me põe alegre feito menino
Desejo louco de correr descalço
Sob um céu azul de feriado
Pipa, bodoque, bolinha de gude, futebol de botão
Teu nome doce como pudim de laranja
Resgata a infância do moço sério

Friday, February 17, 2006

A mulher fatal

A mulher fatal já está presente
No jeito que a menina tem de ajeitar os cabelos.
Gesto delicado e preciso, leva a mecha do rosto
Para trás da orelha num piscar de olhos.
E o faz com tal leveza e decisão
– Mascando seu chicle de bola como se nada,
Que todo o mundo repara – os adultos
Com certo rubor. Afinal, poderia ser minha filha
(É o que pensam, não dizem).


Em dois anos, no máximo
Guerras serão feitas em seu nome
Exércitos cairão aos seus pés

Haverá incêndios e ranger de dentes.
Mas ela finge dar de ombros
- E que ombros!
Enquanto deita o olhar indiferente
Pela janela do ônibus. A indiferença própria
Da mulher fatal aos treze anos.

O laranjal

De novo virá o dia,
Com a mesma cara de espanto.
Surpreenderá a cama desfeita,
A casa em desordem, o ar rarefeito.
Só o pó adentrará teu lar.


O sol não terá piedade. De novo
A língua de sal ressequida
Recusará o esforço da palavra.
O que pensas da política?
Recusarias um suborno? Uma esmola?
Negas a vida, queres dormir.

No cerne de teu umbigo, no antro
Buscas a mãe.
Deus não te reconforta. O dinheiro
Escorre pelos dedos: tudo é areia.
Já não sonhas. Estás preso ao pó
Quando aspiras a eternidade.

Tens de aceitar o vício
Sem pudor. O que poderia ser
Torna-se uma caixa de planos adiados:
A queda não finda,
Mas a noite te puxa pelos cabelos
E te possui.

Fora de tua casa, alheio
O sol derrama seu ouro
Sobre o imenso laranjal.

Thursday, February 16, 2006

Criminoso

Há crimes que não aconteceram
E por isso vagam natimortos
No arquivo das delegacias.

Assim, a biografia
Não passa de um boletim de ocorrência:
O hiato que separa o poeta do assassino
Não nega ao poema violência.

Wednesday, February 15, 2006

Pressentimentos

Hoje abriguei pressentimentos efêmeros
Como se guardasse peregrinos em mim.
Entre tua janela e a minha
Um corredor de pedra
Espera vir a ser memória.

Tuesday, February 14, 2006

Ao Meio

Parte de mim é o que eu sinto
E outra parte é o que eu faço
A metade melhor é a que eu minto
E a outra metade eu não mostro

É franca a lição da vida que eu estudo
E limpo o meu discurso em sua contradição
Sou do tipo emotivo que se entrega ao mundo
E também um conformado escondido na razão

Sou de um lado, a água da represa estacionada
E de outro, o mar revoltado e o tufão
Tenho em mim, metade da maçã mordida
E também metade da tentação
(Uns dias acordo Serpente
Em outros, acordo Adão)

Posso tanto ser Apolo
Como posso ser Dionísio
Trago mil personagens a tiracolo
E na lapela, um ramo de narcisos

Parte de mim é o que eu sei
E outra parte é o que eu acho

Monday, February 13, 2006

Chuva

Não quero senão a chuva
Nela flutuam os deuses
Dançando nas águas do vento
Tocando flautas invisíveis.

Saturday, February 11, 2006

Poema das Aspirações

Hoje eu queria ser perfeito como um poema nunca escrito.
Talvez o cristalino grito
Que rasgasse a impureza dos livros
E ecoasse pelos prédios
Fazendo trincar as taças
E umedecer as moças
Com suas pernas cruzadas.
Hoje eu queria ser um nada, cercado de tudo.
Talvez o impenetrável escudo
Que suportasse o impacto da espada
E protegesse meu frágil coração
Da torturante gravata
Do asfixiante botão.
Hoje eu queria ser o peito nu e o vento no cabelo.
Atingir o nirvana com o rosto coberto de espuma
Num velho salão de barbeiro.
Para meus amigos o primeiro gole de cerveja;
Para minhas mulheres, um pouco de tristeza,
Embrulhada para presente.
Hoje eu queria jogar porcos às pérolas
E escrever um poema pornográfico
Que falasse de bucetas e guerrilhas

(mas existe uma tabuleta pedindo silêncio).
Então ficamos assim:
Para os mortos, sacrificarei um bode
E não pretendo limpar os pés no tapete.
Pisar na grama todo mundo pode
Proibido mesmo é chupar sorvete.

Thursday, February 09, 2006

Álbum branco ( Happiness is a Warm Gun )

Eu quero um dia como aquele
Em que ouvi pela primeira vez o álbum branco
Dos Beatles.
Neste dia a música tomou conta da casa
E se alastrou dentro dela
Como incenso que derramasse
Espíritos pelas frestas
E deixasse vestígios nos lençóis
Algo assim como provas do crime
Depois de uma puta festa.


Eu quero um dia como aquele
O dia da primeira audição de rock
Do primeiro porre, da primeira crise
Um dia que soasse novamente claro
Outra vez único e agressivo
Feito a bolacha girando no prato
E o mata-rato trincando o peito.

Eu quero um dia que seja
Branco como o álbum
Tão clarividente que cegasse os idiotas
Um dia puro ou on the rocks
Mas que meu fígado absorvesse como uma porrada
E que trouxesse a erva de ontem
Exalada sem pressa junto ao pai
No sofá de couro amarelo trazido da Índia
Um dia tão familiar que caísse mal aos hipócritas
E tão grosseiro que rompesse os cristais.

Eu quero um dia como aquele dia
Em que ouvi pela primeira vez o álbum branco
E reconheci em meu pai o mesmo jovem que eu era:
A felicidade é uma arma quente
Ele me disse, como que matando a minha sede.
E eu saí dançando pela casa
Chutando portas e paredes.

Gato dormindo











Para Aldemir Martins (1922 - 2006)

Entre o telhado e a lua
Um gato dorme
O sono dos justos.
Eu, por outro lado,
Não tenho pro aluguel
Sofro a insônia da rua
Estou mais longe do céu.



Wednesday, February 08, 2006

Rio de Janeiro

Rio o riso raso
Que o oceano reza na areia
O canto das baleias.

O Rio é um estupro verde.

E eu rio o riso largo
Do óleo amargo da lagoa.
O rio roto, o rio esgoto.

O Rio é um orgasmo negro.

Rimos todos o riso rosa
A rima, o verso e a prosa.
Olha a Mangueira aí, gente!

O Rio mulato sem dentes.

Ri-se todo o Rio
O Rio-Éden
O Rio-Lodo
Na canícula do domingo:
Bingo!

O Rio que corta a minha aldeia
é o que me ultrapassa;
- e me rodeia.

Sartreano

Não é dor o que vaza pelo corte
Essa gota de morte
Não é dor.

Abro o peito por esporte
E eis o meu ponto forte:
Não depender do amor.

Monday, February 06, 2006

Testamento

Pode ser que eu morra hoje
Nunca se sabe.

Pode ser que eu morra jovem
Nos braços da prostituta
Pode ser que eu morra velho
Nos seios flácidos da enfermeira.

Em verdade tanto faz.

Em caso de morte, meu amigo
Tudo o que tive passa a ser teu:
Dívidas no banco
Inimigos na imprensa
Remédios para dormir
E uma agenda de telefones
Para quando vir a solidão
Na hora neutra da noite.

Quando estiveres em minha casa
Revirando as coisas
Tome cuidado com as cartas
Leia e queime as que possam macular
Minha anêmica biografia.

Também devolva os livros que tomei emprestado
Menos aquele do Caicedo
Que é para que te lembres da vergonha
De termos ultrapassado os vinte e cinco anos.

Não busques por dinheiro, obras inéditas ou segredos
Morto, sou o que fui em vida
Um estertor adiado e límpido
Sem grandes tragédias ou musas
Epopéias ou murros.

Tens a liberdade de vender os discos
Ou trocá-los por outros de sua preferência
Poupe, apenas, o gramofone do avô
Era um esqueleto decorativo
Mas cairá bem em teu futuro escritório.

Vês que não te deixo muita coisa
Mas crês na grandeza do testamento
E neste resignado apelo à eternidade:
Fique contigo os meus vinte e poucos anos

Guardados no purgatório das gavetas.

Estopim

Trampolim para a manhã definitiva
A paixão é o estopim da história.
Faz com que o homem
À maneira de um suicida
Encerre em si uma epopéia
E salte para dentro da vida.
Soldado na linha de frente
Zombando do próprio destino.

Sunday, February 05, 2006

Trecho de rua

O frio dentro de nós
Não é inverno
Pela porta entreaberta
Um trecho de rua deserta
Saúda a liberdade.

Eu, trancafiado entre livros,
Atiro meu cigarro ao meio-fio:

Lá fora o verão é escaldante.

Nítido















Como é nítido o amargo das azeitonas
Que como sentado à mesa

Desta casa sem jardim
Desta terra sem olivas
Desta vida sem esperas.

Friday, February 03, 2006

Oração

Senhor, livrai-me do Diabo.
Ontem o surpreendi na esquina de casa, espreitava-me.
Vi quando seguiu-me, mas alcancei o portão a tempo
e bati-lhe a porta na cara.
Livrai-me, Senhor, do Diabo na penumbra.
Com seu cheiro de urina e aguardente
ele a tudo afasta e contamina.
Hoje, pela manhã,
o encontrei entre os cactos,
bêbado e nu.
Senhor, livrai-me do Diabo
com sua máscara enrugada
seus olhos de cão faminto
suas mãos sujas estendidas.
Senhor, afastai a máscara, os olhos, as mãos
– e metade do meu egoísmo.

Thursday, February 02, 2006

Bar Garoa Paulista

Estou para morrer
Eu sempre soube
Nunca senti doer
Mas a vida não me coube

Ri, delirei, tive prazer,
E tenho, apesar do fim

Em vista do que me resta
Sirvam-me o gim
Preparem a festa:

A vida não serve pra mim
Mas a morte também não presta.

Silêncio

Silêncio:
uma orquestra de brisa
tocando para um público surdo