antologia da noite em claro

Monday, June 19, 2006

Django´s Blues (balada da canção interminável)

Uma canção bóia no breu da sala
Chiado de vinil, vinho tinto e dormonil.
Por quê o sono não vem? Por quê a vida se abala?
Lá fora, na noite imensa da cidade imensa,
Vejo um irmão vagando a esmo, um cão vadio,
Um carro encendido no pátio de desmanche.
A natureza da casa não reconhece a alma
E nem a calma do comprimido sossega a chama.
Por quê buscar um sentido? Por quê recusar a cama?
Django Reinhardt, Django Reinhardt.
Repito este nome até que a madrugada me vença
E o pio do primeiro pardal me encontre exaurido
De mim, de álcool, de tudo.
Vem, animal do dia, zombar em minha janela!
Vem, ó musa impossível, rasgar o primeiro caderno!
Porque sou imortal, sou eterno,
E não este fio de homem, esta réstia de noite
Tragada pelo cigarro, consumida pela estrela.
Este não sou eu diante da xícara de chá
Não sou eu este que pede, este que implora.
Vem, ó vida verdadeira, vem.
Mesmo assim, vem. De olhos vendados, vem.
Amordaçada, sangrando. Mas vem.
Vem riscar o disco, anular esta canção interminável
Porque sou este inseto em tua mão
Este farol no deserto

Este pedaço de pão.